Outubro Rosa: um convite ao autoconhecimento e à sexualidade feminina

Outubro chegou — e com ele, as campanhas de prevenção ao câncer de mama ganham novamente destaque. O mês já se consolidou no calendário brasileiro como um convite ao cuidado com a saúde feminina. Embora a maioria dos casos acometa mulheres acima dos 40 anos, vale lembrar que a doença também pode surgir em mulheres mais jovens — e, em menor proporção, em homens. 

Segundo estimativas do Ministério da Saúde para o triênio 2023-2025, o Brasil deve registrar cerca de 73.610 novos casos de câncer de mama em mulheres, o que representa uma taxa de incidência de 41,89 casos a cada 100 mil mulheres. Entre os homens, a ocorrência é rara, correspondendo a aproximadamente 1% de todos os diagnósticos. São números que, embora desiguais, revelam a urgência de manter o tema em pauta e de reforçar o olhar de toda a sociedade para a prevenção.

O câncer de mama permanece entre as principais causas de morte entre mulheres. O acesso a exames preventivos ainda é desigual, especialmente em parcelas mais vulneráveis da população, e as políticas públicas precisam avançar na democratização dos direitos básicos de saúde. Por isso campanhas como o Outubro Rosa são fundamentais: alcançam pessoas que, por falta de informação ou pela correria do cotidiano, deixam de olhar para os próprios corpos.

Eu sou a psicóloga Patricia Gonçalves, pesquisadora na área da sexualidade. Convido você a ler e entender um pouco mais sobre como o Outubro Rosa dialoga com o autoconhecimento corporal e com a sexualidade feminina — e por que isso importa para prevenção, saúde mental e bem-estar.

 

Outubro Rosa: mais do que prevenção, é sobre autoconhecimento e sexualidade. Entenda a importância de olhar para o próprio corpo com cuidado e respeito.

Outubro Rosa e o poder do autoconhecimento corporal


O Outubro Rosa teve origem nos Estados Unidos e ganhou força em 1990, quando a Fundação Susan G. Komen for the Cure promoveu a “Corrida pela Cura” em Nova York e distribuiu laços rosa aos participantes. No Brasil, a iniciativa chegou mais tardiamente — um marco simbólico ocorreu em 2002, quando o Obelisco do Ibirapuera foi iluminado de rosa.

Campanhas públicas têm um valor simbólico potente: fazem a mulher — e a sociedade — parar e lembrar da importância de olhar o próprio corpo. O primeiro ato de cuidado muitas vezes começa pela própria pessoa: o autoexame, o toque consciente que pode identificar algo novo ou diferente. Por isso é importante lembrar que o autoexame não é um gesto isolado nem substitui exames clínicos; é, porém, um hábito que deve ser cultivado ao longo do ano, aliado a consultas e à mamografia quando indicadas.

 

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Outubro Rosa: mais do que prevenção, é sobre autoconhecimento e sexualidade. Entenda a importância de olhar para o próprio corpo com cuidado e respeito.

Por que falar de sexualidade no Outubro Rosa?


Falar de sexualidade no contexto do Outubro Rosa não é deslocado — ao contrário: é fundamental. A sexualidade feminina não se reduz ao ato sexual; ela engloba prazer, sensações, autoestima e a relação que cada mulher tem com seu corpo. Quando a mulher conhece e aceita seu corpo, tende a cuidar melhor dele — inclusive em termos de prevenção.

A literatura brasileira registra há muito essa matriz simbólica. Jorge Amado escreveu sobre seios como vida e naturalidade; Carlos Drummond remeteu ao seio como acolhimento; Adélia Prado associou seios a maternidade e criação. Esses autores mostram que os seios carregam significados que atravessam a cultura — e que, quando ressignificados com autonomia, podem fortalecer o cuidado e a autoestima.

 

Outubro Rosa: mais do que prevenção, é sobre autoconhecimento e sexualidade. Entenda a importância de olhar para o próprio corpo com cuidado e respeito.

Corpo, perda e reconexão: de Freud ao pensamento contemporâneo


Na psicanálise clássica, Freud descreveu o seio materno como o primeiro objeto de amor e satisfação do bebê — um lugar de prazer e nutrição cuja retirada, o desmame, implica experiência de perda. Em leituras posteriores, teóricas e teóricos contemporâneos (como Luce Irigaray, Julia Kristeva e outros) destacaram a dualidade do seio: nutrir e seduzir, funcionar e significar.

Para muitas mulheres, a maternidade e as transformações corporais que a acompanham podem provocar um conflito entre o corpo funcional (aquele que realiza cuidados) e o corpo desejante (aquele que busca reconhecimento, prazer e autonomia). Esse conflito é psíquico — e suas manifestações incluem baixa autoestima, dificuldade para sentir prazer, ansiedade e até negligência com a própria saúde. Tabus, culpas e normas religiosas ou educacionais perpetuam a desconexão entre a mulher e seu corpo.

 

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Terapia como caminho de reconexão


A terapia pode ser um espaço seguro para trabalhar essa desconexão. A reconexão emocional com o corpo — por meio de narrativas, de escuta clínica e de técnicas que promovam presença corporal — ajuda na elaboração de sentidos, na ressignificação de experiências e no fortalecimento do autocuidado. Cuidar do corpo também é permitir-se sentir: prazer, desejo, medo, força.

 

Um olhar sobre o cuidado feminino


Em anos de pesquisa, observei que a relação das mulheres com seus corpos é complexa e atravessada por expectativas externas e por autoexigências internas. Historicamente, as personagens femininas nas tragédias e na literatura costumam ocupar posições intensas — testemunhos culturais do lugar ambíguo que a sociedade confere ao feminino. A figura trágica feminina é um espelho das impossibilidades e dos desejos da sociedade que a observa.

Cuidar do corpo, portanto, é também um ato de coragem e resistência. Conhecê-lo é um primeiro passo para cuidar de si — físico, emocional e psicologicamente.

 

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Convite à reflexão e ao cuidado


Neste Outubro Rosa, não deixe de realizar o autoexame (caso queira orientação, consulte seu médico ou clique [aqui] para um passo a passo) e de fazer os exames preventivos recomendados para sua faixa etária e fatores de risco. Procure um médico se notar qualquer alteração ou se tiver dúvidas.

Olhe-se no espelho e reconheça-se: você é uma pessoa inteira, com desejos, medos e forças. Não carregue culpa por sentir — suas buscas emocionais e físicas são legítimas. Você merece autoestima, prazer e uma vida mais saudável.

A terapia pode ajudar nessa reconexão. Se quiser, estarei ao seu lado nesse processo. Sou Patricia Gonçalves, psicóloga com mais de 15 anos de experiência em atendimento clínico e pesquisa em sexualidade. Entre em contato para saber como posso apoiar sua trajetória de autoconhecimento e cuidado.

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